“Alcir, será que estou desperdiçando minha vida no caminho errado?” – foi a pergunta que um jovem me fez ontem durante uma roda de conversa.
[spoiler]: a carreira é uma viagem em direção a um alvo móvel.
Talvez uma das maiores angústias de carreira hoje não seja a falta de caminhos. É a percepção do excesso deles.
Durante muito tempo, escolher um caminho parecia seguir uma trilha mais previsível: estudar, entrar em uma empresa, crescer, ocupar uma posição melhor e, quem sabe, permanecer ali por muitos anos. Esse mundo não acabou completamente, mas deixou de ser a única referência. Hoje, especialmente para os jovens, cada escolha parece carregar uma pergunta cruel: “será que estou perdendo tempo com o que estou fazendo agora?”
Barry Schwartz, ao estudar o chamado paradoxo da escolha, mostrou que mais opções nem sempre produzem mais liberdade. Muitas vezes, produzem ansiedade, comparação, arrependimento e paralisia. Na carreira, isso aparece quando o jovem olha para tantas possibilidades: grandes empresas, startups, concursos, empreendedorismo, vida fora do Brasil, trabalho remoto, creator economy, IA, global worker… ufa! Ele sente que qualquer decisão pode fechar portas importantes.
O problema é que carreira não se constrói com a escolha perfeita. Constrói-se com escolhas possíveis, bem observadas e corrigidas ao longo do caminho. A pesquisa global da Deloitte com jovens da geração Z e millennials mostra algo interessante: muitos já não buscam apenas crescimento rápido. Procuram estabilidade, bem-estar, sentido e desenvolvimento de longo prazo. Isso não é falta de ambição. Pode ser uma tentativa de escolher melhor em um mundo mais instável.
A angústia nasce quando o jovem acredita que precisa acertar tudo cedo demais. Escolher uma carreira, aceitar uma proposta, mudar de área ou permanecer onde está não deveria ser tratado como sentença definitiva. Toda escolha tem renúncia. Toda decisão deixa algo para trás. Amadurecer é entender que não existe caminho sem perda, mas existe movimento com consciência.
Um executivo de uma empresa global me disse uma vez: “planejar uma carreira é como planejar uma viagem à Lua. Enquanto você executa seu plano, a Lua se move. Você ajusta o plano, executa e a Lua se move. Ao final, talvez você chegue à Lua ou não. Porém, provavelmente, terá chegado mais longe do que aquele que não planejou, não executou e não manteve foco em nada.”
No fim, talvez a pergunta mais útil não seja: “qual é a escolha certa para o resto da minha vida?”, mas: “qual escolha me ajuda a crescer agora, sem me afastar demais de quem eu quero me tornar?”



