Todo mundo fala. Pouca gente sabe explicar. E quase ninguém consegue provar.
Há um mês, um cliente me perguntou como desenvolver uma cultura meritocrática. A pergunta não é nova e a recebo recorrentemente.
Depois de 30 anos de carreira e inspirado pelo genial Zeca Pagodinho, respondi:
— Nunca vi, nem comi. Só ouço falar. [spoiler: há esperança, leia até o final]
A meritocracia é uma promessa bem intencionada.
Ela diz que esforço, talento, comportamento e resultado serão reconhecidos de forma justa. Parece bonito na fala dos executivos, nos slides sobre cultura ou em encontros de liderança.
O problema começa quando a vida real entra em cena.
Promoções não dependem apenas de desempenho. Reconhecimento não depende apenas de entrega. Oportunidades não chegam para todos do mesmo jeito. Carreiras são jornadas de fatos e percepções!
Existem relações de poder, favoritismos, vieses, conveniências, proximidade com quem decide, desigualdade de acesso, além do privilégio de estar no lugar certo, na hora certa.
Mesmo assim, muitas empresas continuam repetindo que “os melhores chegam lá”. É uma frase confortável para quem chegou e cruel para quem ficou para trás.
Talvez o erro esteja em confundir mérito com meritocracia.
Mérito é aquilo que uma pessoa constrói: conhecimento, disciplina, consistência, caráter, reputação, coragem, capacidade de colaborar e resultados entregues ao longo do tempo.
Meritocracia é o sistema que promete reconhecer tudo isso de maneira justa.
A questão é o que você faz com essa realidade.
Desistir de construir méritos porque o sistema é imperfeito seria entregar sua carreira ao mesmo sistema que você critica.
Por isso, continue aprendendo. Transforme seu potencial em boas entregas. Construa sua reputação, amplie seu repertório e trabalhe com pessoas melhores do que você. Tenha caráter quando não houver plateia. E nunca dependa de reconhecimento para sair da cama.
Promoção depende da empresa. Reconhecimento depende de quem analisa, julga, erra, acerta e decide.
A meritocracia pode ser uma farsa. Seus méritos não precisam ser.
E talvez a pergunta mais incômoda para qualquer líder seja esta:
Sua empresa reconhece mérito ou apenas recompensa proximidade, conveniência e poder?



