Depois de dez meses acompanhando um grupo de jovens profissionais, dentro de um programa de potenciais, um deles largou uma pergunta no ar durante o evento de encerramento da jornada: “Alcir, meu chefe é difícil e não sei se eu gosto de trabalhar com ele. Como faço para continuar desenvolvendo minha carreira nesse contexto?”
Muita gente assume a primeira cadeira de liderança acreditando que seu trabalho agora é cuidar do time, entregar resultado e responder pelo que acontece abaixo. É só metade da história. A outra metade acontece para cima.
Gerir o chefe não é puxar saco, concordar com tudo nem desenvolver talento para política de corredor. É entender o que ele precisa entregar, onde está pressionado, como toma decisões, que tipo de informação valoriza e em quais assuntos espera ser envolvido. Gabarro e Kotter chamaram isso, há décadas, de managing your boss: construir deliberadamente uma relação que permita aos dois trabalhar melhor (sim, o seu gestor também atrapalha de vez em quando!).
Uma meta-análise publicada na Personnel Psychology, com 146 amostras, encontrou relação positiva entre a qualidade da relação líder–liderado e o desempenho no trabalho. O mesmo campo de estudos associa relações de maior qualidade a oportunidades de carreira, velocidade de promoção e crescimento salarial.
Para quem acabou de virar gestor, há uma armadilha especialmente comum: querer provar autonomia escondendo problema, demorando para pedir ajuda ou despejando informação no chefe sem nenhuma síntese ou hipóteses de solução.
Chefes razoáveis não precisam saber de tudo. Precisam confiar que saberão aquilo que importa, na hora certa. E confiança cresce quando você antecipa riscos, combina expectativas, leva contexto junto com o problema e chega com alternativas, não apenas com perguntas.
Seu chefe também tem chefe, metas, medo de errar, restrições e uma agenda que você provavelmente não enxerga. Quem está acima de você também tem trabalha com pessoas que o incomodam, pessoas que atrapalham e não o desenvolvem como deveriam.
Aprender a liderar para baixo é parte da promoção. Aprender a gerir para cima é parte da carreira.
Quem ignora isso pode até entregar muito. Só não deveria se espantar quando alguém igualmente competente (ou até menos), mas muito mais confiável para quem decide, avança primeiro.


