Vi um anúncio de emprego no Instagram que parecia ter sido escrito por alguém depois de perder a paciência. Não conheço os responsáveis pela empresa Califórnia Eventos, empresa de Buffet e Catering, mas essa foi minha conclusão imediata, em meio a gargalhadas nervosas.
“Chegar no horário. Fazer o horário inteiro. Se faltar, avisar. Não desaparecer no meio do expediente. Tratar colegas e clientes como gente. Trabalhar durante o horário de trabalho.”
Depois vinham as “habilidades raras”: ouvir orientação, admitir que precisa de ajuda, trabalhar em equipe e não responder “não fui contratado para isso” diante de qualquer tarefa fora do quadradinho.
Um anúncio viral não é pesquisa e seria preguiçoso usá-lo para concluir que “os jovens não querem trabalhar”. Mas caricaturas funcionam porque exageram algo que muitos reconhecem.
O mercado brasileiro vive uma contradição curiosa. A taxa de desemprego caiu para 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, com 103,3 milhões de pessoas ocupadas, recorde da PNAD Contínua. Ao mesmo tempo, 80% dos empregadores brasileiros dizem ter dificuldade para encontrar os profissionais de que precisam, segundo o ManpowerGroup.
Talvez o problema não seja falta de gente, mas o desencontro entre competências, comportamentos, expectativas e adaptação.
A teoria do contrato psicológico, de Denise Rousseau, ajuda a entender a confusão. Toda relação de trabalho possui obrigações que não cabem no contrato formal. A empresa espera responsabilidade, entrega e reciprocidade. O profissional espera respeito, desenvolvimento, remuneração justa e perspectiva. Quando um lado imagina que só o outro tem obrigações, a relação apodrece.
Também não compro o discurso de que “na minha época era diferente”. Era. E muita coisa era pior. As novas gerações estão corretas ao exigir ambientes menos tóxicos, lideranças melhores e uma vida que não seja sacrificada no altar da empresa.
A Deloitte mostrou em 2026 que Gen Z e millennials buscam estabilidade, desenvolvimento e bem-estar; propósito segue ligado à satisfação no trabalho. Isso não é preguiça. É uma redefinição legítima do que vale a pena perseguir.
O problema começa quando autonomia vira ausência de compromisso; flexibilidade vira “faço quando der”; saúde mental vira argumento para evitar qualquer desconforto; e propósito vira a expectativa de que toda terça-feira às 14h o trabalho precise provocar uma epifania.
Trabalho também é disciplina. É aprender o que ainda não sabemos, conviver com gente que não escolheríamos para jantar, suportar frustrações e entregar algo útil para alguém.
A Teoria da Autodeterminação mostra que autonomia, competência e vínculos favorecem motivação, desempenho e bem-estar. Uma meta-análise que reuniu dados de mais de 23 mil pessoas encontrou forte relação entre trabalho significativo, engajamento, satisfação e comprometimento, além de associação maior satisfação com a própria vida.
Aos jovens que estão entrando no mercado, eu diria: aproveitem.
Num mundo em que um restaurante viraliza anunciando que procura gente que chegue no horário, trate os outros bem, escute orientação e não suma durante o expediente, o básico deixou de ser apenas básico. Em alguns lugares, virou vantagem competitiva.
Mas não parem nele.
Cumpram o combinado. Aprendam rápido. Façam perguntas. Dominem uma profissão. Sejam confiáveis. Usem IA. Desenvolvam repertório. E procurem um trabalho que, além de pagar as contas, ajude vocês a construir competências, relações e uma história que valha lembrar.


