O Brasil tem uma relação curiosa com o próprio futuro: somos especialistas em descrevê-lo e bem menos competentes em construí-lo.
Há décadas repetimos que temos território, recursos naturais, mercado consumidor, energia, agronegócio e gente criativa. Tudo verdade. Mas potencial só vira prosperidade quando encontra instituições capazes de transformá-lo em produtividade, confiança, investimento e oportunidade.
Foi justamente essa relação entre instituições e prosperidade que levou Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson ao Nobel de Economia de 2024. A tese incomoda: países não prosperam apenas pelo que possuem, mas pela forma como funcionam, ou seja, pelas regras que ampliam oportunidades, limitam a captura do poder e criam incentivos para investir, inovar e produzir.
Douglass North chamou instituições de “regras do jogo”. Elas incluem leis, normas informais, hábitos e aquilo que aprendemos que é tolerado. O Banco Mundial acrescenta: boas regras no papel podem fracassar quando assimetrias de poder favorecem exclusão, captura e clientelismo.
Política pública não acontece em belas apresentações em slides, eventos pirotécnicos ou posts bonitos. Cultura organizacional e crescimento empresarial também não.
E aqui começa uma parte mais incômoda: o setor privado não vive fora do Brasil. O país entra nas empresas, senta nas reuniões, participa das promoções e aparece na maneira como distribuímos poder.
Estudos sobre organizações brasileiras, como os de Chu e Wood Jr., identificam traços como personalismo, desigualdade de poder, formalismo, flexibilidade e “jeitinho”, mesmo num ambiente mais globalizado. Talvez por isso algumas cenas sejam familiares: pedimos autonomia, mas centralizamos decisões; defendemos meritocracia, mas toleramos privilégios relacionais; criamos processos e depois negociamos exceções.
O Brasil criou o SUS, o Pix e programas sociais de grande escala. O PNUD usa esses exemplos para mostrar capacidade institucional relevante convivendo com desigualdades persistentes e estruturas de poder que limitam seu alcance.
Em 2026, a OCDE ainda aponta produtividade estagnada, investimento fraco e barreiras regulatórias como freios estruturais do país. Em 2024, 24% dos brasileiros de 18 a 24 anos não estudavam nem trabalhavam, contra 14% na média da OCDE.
Talvez devêssemos parar de perguntar apenas “o que falta ao Brasil?” e fazer uma pergunta mais indigesta: o que nós preferimos recompensar e tolerar como brasileiros?
Recompensamos quem aumenta produtividade ou quem aprende a navegar pela complexidade? Quem compete ou quem consegue proteção? Quem investe no longo prazo ou quem captura vantagem no curto? Quem enfrenta um problema ou quem fica competente em administrá-lo sem resolvê-lo?
Vale fazer a mesma pergunta dentro da empresa. Quem cresce: quem entrega, aprende e coopera ou quem domina as relações, conhece os atalhos e evita contrariar o poder?
É fácil condenar o “jeitinho brasileiro” no almoço e pedir uma exceção ao processo depois da sobremesa. Nós criamos uma cultura de pequenos delitos e somos moralistas ridículos.
Seria intelectualmente preguiçoso culpar apenas governo, empresários, servidores, políticos ou “o brasileiro”. Instituições são sistemas de incentivos construídos e reproduzidos por muita gente durante muito tempo. E quem se beneficia de determinado arranjo raramente deseja desmontá-lo.
Essa talvez seja a parte mais desconfortável da discussão de Acemoglu e Robinson: instituições extrativas podem sobreviver não apesar de produzirem resultados ruins para muitos, mas porque continuam produzindo resultados muito bons para alguns.
Por isso, nosso problema talvez não seja falta de ideias, projetos ou discursos sobre futuro. Temos toneladas deles.
A distância perigosa está entre aquilo que dizemos valorizar e aquilo que nossas regras, escolhas e comportamentos efetivamente premiam.
Queremos inovação, mas protegemos territórios, tratamos mal o erro, e muitas vezes, quem erra. Exigimos produtividade, mas normalizamos complexidades que não geram valor e somos indisciplinados. Discursamos sobre o protagonismo na liderança, mas centralizamos decisões e somos movidos pela hierarquia, pelo poder e pelo ego.
Talvez seja por isso que o Brasil tantas vezes pareça estar prestes a acontecer: não por falta de potencial, mas porque mudar um país exige algo bem menos confortável do que escrever novas regras. Exige deixar de premiar os comportamentos que sustentam as regras antigas e não tolerar aquilo que nos destrói.




