Resposta rápida: antes de adotar IA no treinamento e desenvolvimento, a área precisa considerar cinco alertas. Primeiro, o uso pessoal da IA cresce muito mais rápido que o corporativo, sinal de falta de política e de preparo. Segundo, o conteúdo gerado pela IA tende a ser genérico sem contexto. Terceiro, haverá medo e resistência. Quarto, existe o risco de “sarcopenia mental”, quando as pessoas param de pensar. Quinto, haverá fracassos no caminho. A IA só funciona com dados confiáveis, segurança da informação, contexto bem definido e pessoas letradas, e este último pilar é responsabilidade do T&D.
Para Leonardo Zagotta, CEO e sócio da Movidaria, a IA está provocando uma movimentação de “placas tectônicas” no trabalho, comparável à chegada do computador pessoal e da internet nos anos 1990. A forma como as pessoas acessam informação e adquirem conhecimento está mudando, e com ela o papel das áreas de T&D, universidades corporativas e DHO.
O tema foi discutido no webinar “Como manter o T&D relevante em um mundo com IA”, da Movidaria em parceria com a Revvo, empresa de tecnologia educacional corporativa.
Por que a IA muda o jogo da aprendizagem
Léo compara a IA aos meios que vieram antes: o livro, o rádio, a TV e a internet. Cada um levou menos tempo que o anterior para se popularizar, mas todos, exceto a internet, eram essencialmente unidirecionais. As ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Gemini e Claude, trazem algo inédito: um canal de acesso a conhecimento interativo, customizável e de mão dupla.
Isso torna a IA um novo canal à disposição do T&D para desenvolver as capacidades das pessoas. Mas Léo propõe olhar para ela com estratégia, e não com hype. São cinco alertas.
Alerta 1: o uso pessoal cresce mais rápido que o corporativo
Léo cita dados divulgados pela OpenAI: em junho de 2024, cerca de 53% das conversas no ChatGPT não eram ligadas ao trabalho. Um ano depois, essa fatia subiu para cerca de 73%. A distância entre o uso pessoal e o corporativo aumentou.
Para ele, isso é sintoma de que:
- muitas empresas ainda não têm políticas formais de uso de IA;
- TI e compliance ainda estão correndo atrás;
- no contexto corporativo, a IA exige muito mais precisão, e as pessoas se sentem inseguras.
Léo resume os quatro pilares para a IA funcionar dentro de uma organização:
| Pilar | Responsável típico |
|---|---|
| Base de dados confiável | TI e áreas de negócio |
| Segurança da informação | TI e compliance |
| Contexto bem definido | Áreas de negócio e processos |
| Pessoas treinadas para usar | T&D |
“Desses quatro pilares, pelo menos um é responsabilidade de T&D. A gente vê isso como uma oportunidade.”
Leonardo Zagotta, CEO e sócio da Movidaria
Alerta 2: o conteúdo gerado pela IA tende a ser genérico
Sem contexto bem formatado e base de conhecimento definida, a IA ou alucina ou entrega um conteúdo mediano. Se você continua usando e alimentando a IA com o mediano, o resultado vai ficando medíocre.
Na visão de Léo, a IA vai bem em brainstorming, formatação e estruturação de tópicos. Mas, para tarefas estratégicas de T&D, como definir objetivos de aprendizagem e fazer o levantamento de necessidade de treinamento, ela ainda não é confiável. Ele cita sinais de que designers instrucionais estão aumentando a produtividade, mas com queda na qualidade do conteúdo.
Alerta 3: haverá medo e resistência
Léo já viu forças-tarefa de clientes que buscam oportunidades de eficiência com IA encontrarem resistência imediata nas áreas visitadas. Os medos vão de perder o emprego a cenários de ficção científica.
O recado dele: não acredite nem nos otimistas, que veem a IA como panaceia, nem nos pessimistas, que preveem o fim do mundo. Mas esteja preparado para lidar com medo e resistência na implementação.
Alerta 4: a “sarcopenia mental”
Léo usa um termo médico, a sarcopenia, perda de massa muscular com a idade, para descrever um risco real: se delegarmos todo o pensamento à IA, o cérebro atrofia.
Ele cita um experimento em que dois grupos resolveram o mesmo problema, um com IA e outro sem. O grupo com IA resolveu mais rápido. Mas, semanas depois, quem usou IA não lembrava de quase nada do que tinha aprendido, enquanto o grupo que resolveu “na unha” levou o aprendizado para casa.
“O cérebro também é um músculo. Se eu delego todo problema para a IA e paro de pensar, eu vou ter uma sarcopenia mental. Aí não vai precisar de você mesmo.”
Leonardo Zagotta, CEO e sócio da Movidaria
Para o T&D, a lição é escolher onde a IA acelera e onde ela pode reduzir as capacidades da organização.
Alerta 5: vai haver fracasso
Toda tecnologia emergente passa por testes que dão errado. Léo cita o termo workslop, o trabalho gerado por IA com aparência de pronto mas sem substância, e um estudo do MIT segundo o qual cerca de 95% das iniciativas corporativas de IA generativa ainda não geraram retorno mensurável. Criar uma cultura de aprendizagem em torno da IA exige tolerância à experimentação, sem descuidar da segurança da informação.
Letramento é o ponto de partida
Léo lembra que, nos anos 1990, passou mais de 300 horas em cursos formais para dominar o computador e os programas de escritório. Com a IA, o acesso ao conhecimento é muito mais fácil, mas o princípio continua: as pessoas precisam ser letradas. E, como observaram os participantes da Revvo, letramento vai além de ensinar prompts: é entender o que é a IA, o que ela faz bem e onde ela falha.
Na Movidaria, Léo conta que a empresa montou um núcleo interno de IA, com fluxo de letramento e criação de agentes para testar usos no dia a dia.
O que muda na arquitetura de aprendizagem com a IA é o tema de do 70-20-10 ao 90-10. Exemplos práticos de agentes de IA no desenvolvimento de líderes estão em agentes de IA para líderes e business partners.
Checklist antes de levar IA para o T&D
- A empresa tem política formal de uso de IA?
- As bases de conhecimento que vão alimentar a IA são confiáveis e atualizadas?
- A segurança da informação foi validada com TI e compliance?
- Há um plano de letramento em IA, e não só de ferramentas?
- Está claro onde a IA acelera e onde as pessoas precisam continuar pensando?
- Os objetivos de aprendizagem continuam sendo definidos por especialistas?
- Existe espaço para experimentar e errar com segurança?
Perguntas frequentes sobre IA no T&D
Como usar inteligência artificial no treinamento e desenvolvimento?
Como um novo canal de aprendizagem: apoio em tempo real às dúvidas, curadoria personalizada, agentes treinados com bases de conhecimento da empresa e apoio à transferência do aprendizado. Tudo isso com dados confiáveis, segurança, contexto e pessoas letradas.
A IA pode criar conteúdo de treinamento?
Pode ajudar em brainstorming, estruturação e formatação, mas tende a gerar conteúdo genérico sem contexto bem definido. Tarefas estratégicas, como definir objetivos de aprendizagem e diagnosticar necessidades, ainda exigem especialistas.
Quais os riscos de usar IA na educação corporativa?
Conteúdo genérico ou incorreto, vazamento de dados, resistência das pessoas, iniciativas sem retorno e a perda de capacidade de pensar quando tudo é delegado à IA, a chamada “sarcopenia mental”.
O que é letramento em IA?
É a capacitação para entender o que é a inteligência artificial, como ela funciona, o que faz bem, onde falha e como usá-la com responsabilidade. Vai além de ensinar ferramentas ou prompts específicos.
Quer levar IA para a educação corporativa da sua empresa com estratégia? A Movidaria apoia áreas de T&D a redesenhar suas estratégias de aprendizagem com IA. Conheça as soluções de Aprendizagem da Movidaria.




