Resposta rápida: cinco temas ganharam força nos programas de desenvolvimento de liderança: conexões humanas, para construir confiança em um país de baixa confiança interpessoal; IA com foco em produtividade, aprendida na prática; capacidade analítica, para ler cenários complexos e decidir melhor; gestão ambidestra, para equilibrar curto e longo prazo; e conversas inclusivas no dia a dia, para ir além do letramento. Mas nenhum programa substitui a coerência entre o discurso da empresa e os incentivos que ela oferece.
Sempre que se fala em tendências, vem a pergunta: quais são os temas “quentes” para o desenvolvimento de líderes? Em vez de olhar para relatórios globais distantes da realidade brasileira, os sócios da Movidaria Leonardo Zagotta e Bárbara Diefenthaler, no evento MAPA Movidaria, trouxeram o que veem no dia a dia dos clientes.
1. Conexões humanas
Depois de anos aprendendo a trabalhar em formatos muito diferentes dos que se conheciam, com tecnologia, trabalho remoto e híbrido, Bárbara Diefenthaler aposta no fortalecimento das relações, da empatia e da proximidade do líder com a equipe, como base para o engajamento.
Léo complementa com um dado de contexto. Uma pesquisa internacional conduzida há décadas em vários países pergunta se as pessoas confiam nas outras com quem convivem. O Brasil aparece entre os piores resultados: cerca de 7% das pessoas dizem confiar, contra 74% na Dinamarca.
“Nós vivemos num país em que o nível de confiança entre as pessoas é baixo. Então o papel do líder de criar conexão e confiança é fundamental para ter alto desempenho.”
Leonardo Zagotta, sócio da Movidaria
2. IA com foco em produtividade
Para Léo, as ferramentas de IA baseadas em texto e voz (ChatGPT, Copilot, Perplexity e outras) estão sendo adotadas principalmente para ganho de produtividade. E é o tipo de ferramenta que se aprende usando.
A recomendação para o RH:
- mostrar aos líderes a gama de possibilidades;
- incentivar a autoaprendizagem: deixar o líder testar, experimentar e aprender fazendo;
- criar espaços de troca de práticas, como a própria Movidaria faz internamente.
Léo dá um exemplo pessoal: em uma pesquisa para o podcast, uma ferramenta de IA resolveu em meia hora o que levaria cerca de quatro horas buscando referências em vários sites. É fazer mais com menos tempo. (Os cuidados para usar IA no desenvolvimento de pessoas estão em 5 alertas sobre IA no T&D.)
3. Capacidade analítica
Com excesso de informação, muitas variáveis e pressão para fazer mais com menos, Bárbara considera a capacidade analítica crucial. Os líderes precisam:
- avaliar bem o contexto e fazer boas leituras de cenário;
- considerar dados e informações relevantes;
- recomendar ações ao negócio;
- tomar boas decisões sobre suas equipes e áreas.
A capacidade analítica também reforça o bom uso da IA: quem sabe analisar extrai muito mais das ferramentas.
4. Gestão ambidestra
O paradoxo entre o hoje e o amanhã voltou com força. Muitos incentivos focam o curto prazo, mas o líder não pode esquecer o longo prazo. Ajudar os líderes a lidar com esse paradoxo temporal é, para Léo, um tema central. (Aprofundamos em liderança ambidestra: o que é e por que não é moda.)
5. Conversas inclusivas no dia a dia
Bárbara observa que, nos últimos anos, as empresas avançaram muito em políticas e no letramento das lideranças sobre diversidade, equidade e inclusão. O próximo passo é ajudar os líderes a ultrapassar a barreira do letramento e traduzir as práticas da empresa em comportamentos do dia a dia com suas equipes, como conduzir conversas inclusivas e aplicar essas práticas na gestão.
Resumo: os 5 temas e o que desenvolver
| Tema | O que o líder precisa desenvolver |
|---|---|
| Conexões humanas | Empatia, proximidade e construção de confiança na equipe |
| IA para produtividade | Experimentação prática e senso crítico no uso das ferramentas |
| Capacidade analítica | Leitura de cenário, uso de dados e qualidade de decisão |
| Gestão ambidestra | Equilíbrio entre eficiência no curto prazo e projetos de longo prazo |
| Conversas inclusivas | Transformar letramento em comportamento de gestão no dia a dia |
Gestão humanizada em contextos desumanos?
Uma participante do evento perguntou como os líderes podem ser cobrados por gestão humanizada em contextos que, muitas vezes, não são humanos. A resposta de Léo vai além dos programas de desenvolvimento:
- As pessoas respondem a incentivos. Não adianta um discurso de gestão humanizada se os incentivos apontam para o lado contrário.
- A coerência vem de cima. Se a alta liderança dá outro tom perante os demais líderes, o discurso perde força.
- O ambiente físico também comunica. Ele cita empresas que mudaram comportamentos ao redesenhar os espaços de trabalho.
“Quando a gente fala de desenvolvimento de liderança, a gente pode trabalhar competências que ajudam nisso. Mas não cabe só aos programas definir se o líder vai ter uma gestão mais humanizada. Há outros elementos que precisam estar alinhados.”
Leonardo Zagotta, sócio da Movidaria
Escolher quais desses temas priorizar depende do contexto e do momento do pipeline, como explicamos em pipeline de liderança: como planejar o desenvolvimento de líderes.
Perguntas frequentes sobre competências de liderança
Quais são as competências de liderança mais importantes hoje?
Construção de confiança e conexões humanas, uso produtivo e crítico da inteligência artificial, capacidade analítica para decidir em cenários complexos, gestão ambidestra entre curto e longo prazo e capacidade de conduzir conversas inclusivas no dia a dia da equipe.
Como desenvolver líderes para usar inteligência artificial?
Mostrando as possibilidades das ferramentas, incentivando o uso prático e a experimentação, criando espaços de troca de aprendizados entre líderes e desenvolvendo o senso crítico para avaliar as respostas da IA.
Por que a confiança é um desafio para os líderes no Brasil?
Porque pesquisas internacionais mostram que o Brasil tem um dos menores índices de confiança interpessoal do mundo. Isso torna ainda mais importante o papel do líder em criar proximidade, segurança e confiança para que a equipe tenha alto desempenho.
Programas de liderança resolvem a falta de gestão humanizada?
Sozinhos, não. Eles podem desenvolver competências, mas os incentivos, o exemplo da alta liderança e o próprio ambiente de trabalho precisam ser coerentes com o discurso para que a mudança aconteça.
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