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Sem brio, você está morto.
Sem brio, você está morto.

Tenho acompanhado um time que, antes de precisar de novas experiências de aprendizagem sobre “competências”, talvez precise recuperar algo mais básico: brio.

A palavra parece antiga. Talvez por isso faça tanta falta.

Brio não é vaidade corporativa, daquelas que precisam transformar qualquer entrega em peça de autopromoção. Também não é arrogância, porque a pessoa arrogante costuma confundir crítica com ameaça. Muito menos é orgulho infantil, daquele que se ofende quando alguém aponta o óbvio. Certamente, não se trata também de algum viés abobalhado do ego.

Brio é outra coisa. É uma espécie de compromisso íntimo com o próprio nome. É a incapacidade de olhar para uma entrega malfeita e achar que está tudo bem. É algo visceral, que arde e produz uma energia impossível de ser explicada por qualquer vocabulário.

E esse ponto me parece decisivo para quem assume uma posição de liderança e gestão. Mesmo as primeiras cadeiras de uma carreira de gestão exigem esse inconformismo. Imagine, então, gerentes, diretores ou executivos no C-level sem brio.

Porque existe um momento em que o problema de um time deixa de ser técnico e passa a ser moral no sentido mais prático da palavra: as pessoas sabem o que precisa ser feito, mas já não se incomodam tanto quando fazem abaixo do possível. Atrasos viram rotina. Reuniões improdutivas viram paisagem. Combinados são esquecidos com naturalidade. Entregas medianas passam a circular sem constrangimento. E, quando alguém questiona, surge aquele repertório conhecido: “sempre foi assim”, “não deu tempo”, “ninguém avisou”, “a demanda não estava clara”.

Pode até ser verdade em alguns casos. Mas, quando tudo vira justificativa, ninguém mais segura o padrão; ninguém mais se importa com performance e desempenho.

As grandes empresas vivem hoje uma combinação dura: competição global, pressão por produtividade, transformação digital, inteligência artificial, margens apertadas, clientes menos pacientes e ciclos de decisão cada vez mais curtos. Nesse cenário, um time sem brio não é apenas um time desanimado. É um risco operacional. Ele consome energia da liderança, gera retrabalho, derruba a confiança entre áreas e faz com que os melhores comecem a se perguntar se ainda vale a pena jogar sério naquele ambiente.

A ciência organizacional ajuda a explicar parte disso. Ryan e Deci, na Teoria da Autodeterminação, mostram que pessoas se engajam melhor quando encontram autonomia, competência e vínculo no que fazem. Amy Edmondson demonstra que times aprendem mais quando existe segurança psicológica para falar a verdade, admitir erros e testar caminhos. Lerner e Tetlock, ao estudarem accountability, ajudam a lembrar que responsabilização muda a forma como as pessoas pensam, decidem e justificam suas escolhas.

Mas nada disso funciona bem quando o time perdeu o incômodo com a baixa entrega, quando as pessoas estão mornas, sem energia e sem a explosão necessária para realizar algo extraordinário.

Por isso, antes de perguntar qual conteúdo precisa ser ensinado, talvez o líder precise perguntar que parte essencial foi abandonada.

Brio se mantém quando a pessoa entende que seu trabalho fala por ela. Quando não depende apenas da cobrança do chefe para fazer bem feito. Quando pede feedback não para ser elogiada, mas para enxergar o que ainda não viu. Quando honra pequenos combinados porque sabe que a confiança quase sempre quebra nas pequenas coisas. Quando olha para a própria função e pensa: “isso aqui pode ser melhor, e eu tenho parte nisso”.

E como se desenvolve brio em um time?

Não é com palestra motivacional. É com espelho, confrontação de ideias, régua e consequência.

Espelho para mostrar os fatos sem anestesia: onde a entrega caiu, onde o discurso ficou maior do que a prática, onde a equipe passou a aceitar o que antes incomodava.

Confrontação de ideias, porque, sem exposição, sem posicionamento e sem colocar sobre a mesa o que realmente importa, as pessoas tendem a preferir uma harmonia artificial, desastrosa para o desenvolvimento delas mesmas e para o nível de entrega (leia-se mediocridade).

Régua para deixar claro o que será considerado um bom trabalho dali em diante. Sem frase genérica, sem cartaz na parede, sem valor corporativo usado como decoração. Aqui nasce a largada para o processo de diferenciação.

Consequência para que o combinado tenha peso. Consequência não significa punição automática. Significa que escolhas produzem efeitos, bons ou ruins. Quem sustenta o padrão precisa ser reconhecido. Quem derruba o padrão precisa ser chamado para uma conversa adulta. E quem lidera precisa ser o primeiro a se submeter à régua que deseja construir.

No fim, brio talvez seja isso: a vergonha boa de entregar menos do que poderia, combinada com a coragem de corrigir o rumo.

Com brio, aprendizagem vira movimento.

Foto de Alcir Miguel Jr.
Alcir Miguel Jr.
Consultor, Mentor e Conselheiro. Cultura, liderança e equipes de alto desempenho. Founder Movidaria
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