Resposta rápida: liderança ambidestra é a capacidade de entregar o presente com eficiência e consistência enquanto se constrói o futuro com inovação e adaptação. O conceito vem dos estudos sobre organizações ambidestras, iniciados por Robert Duncan em 1976, e não é um modismo. Mas também não se sustenta só no líder: exige estratégia, orçamento, estrutura e equipes preparadas para operar nos dois mundos.
Equilibrar inovação e eficiência é a nova fórmula mágica da liderança ou só mais um buzzword corporativo? No segundo episódio do podcast Insight dos Sócios, os sócios da Movidaria Leonardo Zagotta, Alcir Miguel Jr. e Bárbara Diefenthaler separam o que é hype do que é real.
De onde vem o conceito de liderança ambidestra?
Leonardo Zagotta lembra que, no ambiente corporativo, a cada dia surge um termo novo, e muita gente usa sem saber de onde veio. A liderança ambidestra deriva do conceito de organizações ambidestras, que evoluiu em três momentos:
| Ano | Autor(es) | Abordagem | Ideia central |
|---|---|---|---|
| 1976 | Robert Duncan | Ambidestria sequencial | A organização alterna entre eficiência e inovação conforme o contexto muda |
| 1996 | Michael Tushman e Charles O’Reilly | Ambidestria estrutural | Inovação e eficiência acontecem ao mesmo tempo, em estruturas separadas |
| 2004 | Gibson e Birkinshaw | Ambidestria contextual | As próprias pessoas equilibram as duas demandas no dia a dia |
É nessa terceira abordagem, que depende das pessoas, que nasce a pressão sobre o líder: alguém que olhe para o hoje e para o futuro ao mesmo tempo. Com mercados mais dinâmicos, conectados e globalizados, a inovação é fundamental para criar novas receitas, mas a eficiência continua sendo o que gera resultado e remunera o acionista.
“É um paradoxo: tem que ficar com um olho no peixe e outro no gato.”
Leonardo Zagotta, sócio da Movidaria
Toda empresa precisa de líderes ambidestros?
Alcir Miguel Jr. dá a resposta clássica de consultor, com convicção: depende. Da estratégia da companhia, do ambiente de negócios, da maturidade de processos e da cultura.
Para ele, o tema precisa estar no radar de quem cuida da gestão de pessoas em todo o ciclo, da atração à sucessão, passando por integração, desenvolvimento e remuneração. E ele faz uma ressalva importante:
“Eu sou muito mais fã de pensar em equipes ambidestras do que colocar todas as minhas fichas num único indivíduo.”
Alcir Miguel Jr., sócio da Movidaria
Os desafios práticos do líder ambidestro
Bárbara Diefenthaler define o líder ambidestro como aquele capaz de entregar o básico bem-feito, o transacional com eficiência e consistência, enquanto planeja o futuro e identifica oportunidades de inovação. O principal desafio, segundo ela, é construir uma equipe que consiga atuar nesse contexto. Isso se desdobra em responsabilidades que alternam entre os dois mundos:
- Gestão de prioridades conflitantes: o que é necessário para hoje e o que é necessário para o futuro.
- Alocação de recursos: quanto investir em cada contexto.
- Patrocínio da cultura: sustentar a cultura atual ou a desejada.
- Desenvolvimento e engajamento das pessoas: em que “barco” cada pessoa da equipe vai estar.
- Manutenção de focos de curto e longo prazo.
- Clareza de comunicação, que Bárbara considera chave para qualquer liderança, em qualquer tempo e contexto.
Liderança ambidestra é só mais uma moda?
Alcir não acredita que seja moda. O risco, no Brasil, é outro: as empresas buscam novidades, testam e abandonam na primeira falha, sem deixar o tema amadurecer.
“É uma questão de competitividade, de agilidade e de adaptação. E todos os negócios estão em busca disso.”
Alcir Miguel Jr., sócio da Movidaria
Léo acrescenta o ponto que mais derruba o conceito na prática: não adianta pedir líderes ambidestros se a organização não sustenta a ambidestria. Ele cita o projeto de carro da Apple, encerrado em 2024 depois de cerca de uma década de investimentos, como exemplo de como até as empresas mais admiradas têm dificuldade de inovar e operar ao mesmo tempo.
Se a empresa não coloca dinheiro real em inovação, não cria estrutura para o líder pensar em novidades e cobra dele apenas eficiência e zero erro, o discurso não corresponde à realidade. Aí, sim, o termo vira moda e cai no esquecimento.
Que resultados esperar de líderes ambidestros?
Segundo Bárbara, quando a organização tem de fato o objetivo de ser ambidestra, esses líderes entregam resultados em várias frentes:
| Horizonte | Resultado |
|---|---|
| Curto prazo | Mais produtividade e otimização dos processos atuais |
| Longo prazo | Competitividade, inovação e sustentabilidade do negócio |
| Equipes | Mais engajamento e flexibilidade, porque o líder lida bem com estabilidade e com mudança |
Dá para desenvolver a liderança ambidestra?
Dá, e Léo é enfático. Mas o desenvolvimento é só uma parte do processo. Ele precisa vir acompanhado do alinhamento entre estratégia, estrutura, processos e orçamento.
Do ponto de vista do desenvolvimento, o líder precisa aprender a:
- Dividir tempo e prioridades entre o hoje e o amanhã, lembrando que o longo prazo é a soma de vários curtos prazos.
- Desenvolver a equipe para que ela também equilibre eficiência e inovação.
- Entender os horizontes de inovação: inovar não é inventar o próximo iPhone. Existe inovação incremental, aplicável no dia a dia de qualquer equipe.
O peso da inovação varia por setor. Léo e Alcir já trabalharam com um grande banco que levou a inovação para todas as equipes, porque em serviços financeiros é mais barato experimentar. Em setores de capital intensivo, como siderurgia, as inovações exigem mais investimento e mais tempo.
“Ter ações de desenvolvimento, falar que eu preciso de líderes ambidestros, mas não dar esse suporte, é uma perda de tempo.”
Leonardo Zagotta, sócio da Movidaria
É o mesmo princípio de qualquer programa de desenvolvimento de líderes: ele começa na estratégia do negócio, não no tema da moda.
Perguntas frequentes sobre liderança ambidestra
O que é liderança ambidestra?
É a capacidade de o líder equilibrar duas demandas ao mesmo tempo: explorar o negócio atual com eficiência e explorar novas oportunidades com inovação. O conceito deriva dos estudos sobre organizações ambidestras, iniciados por Robert Duncan em 1976.
Qual a diferença entre ambidestria estrutural e contextual?
Na estrutural, eficiência e inovação ficam em estruturas separadas da organização. Na contextual, as próprias pessoas e equipes equilibram as duas demandas no dia a dia. A liderança ambidestra está mais ligada à abordagem contextual.
Liderança ambidestra é moda?
Não. O conceito tem quase 50 anos e responde a uma necessidade real de competitividade. Vira moda quando a empresa cobra ambidestria dos líderes, mas não oferece orçamento, estrutura e tolerância a erro para a inovação acontecer.
Como desenvolver líderes ambidestros?
Com desenvolvimento focado em gestão de prioridades, uso do tempo, horizontes de inovação e desenvolvimento da equipe, sempre alinhado a uma estratégia que destine recursos reais para inovar.
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